Capitulo 10
DESENVOLVIMENTO MORAL:  ASPECTOS COMPORTAMENTAIS 

O DESENVOLVIMENTO DE RESISTNCIA A TRANSGRESSES 
O enfoque comportamental considera o desenvolvimento moral em termos de princpios de 
aprendizagem. Basicamente, os pais formam o comportamento dos filhos de trs maneiras: 
premiando-os, punindo-os, e atravs do exemplo. Em termos tcnicos mais precisos, diramos que os 
pais se utilizam de princpios de reforamento positivo, reforamento negativo e modelao, 
conforme foi visto no captulo 4. 
Outra caracterstica do enfoque comportamental  o uso de pesquisas empricas, principalmente 
experimentais. Uma grande contribuio do enfoque comportamental foi a nfase em 
comportamentos manifestos da criana em situaes que envolvem decises morais, ao invs do 
estudo do que a criana acha certo ou errado ou como ela se sente a respeito de transgresses. 
Grinder (1961) elaborou uma tcnica original, o revlver de raios (raygun), que consiste em um 
jogo em que a criana atira em alvos rotativos e recebe prmios se atingir determinados escores. O 
aparelho  programado eletronicamente de forma a marcar escores preestabelecidos pelo 
experimentador, independente do desempenho da criana. A criana 
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pode jogar sozinha em uma sala e anotar numa folha de papel os escores que obtm nas vrias 
tentativas. As falsificaes que as crianas cometem ao relatar seus escores servem como medida 
operacional de seu comportamento moral. O revlver de raios de Grinder foi utilizado em muitos 
experimentos sobre resistncia  tentao. (Apesar das possveis conotaes teolgicas, a 
expresso resistncia  tentao tem sido utilizada pelos autores behavioristas para designar os 
estudos em que se estuda experimentalmente o comportamento moral de crianas). As situaes 
experimentais do tipo do revlver de raios podem ser criticadas por no corresponderem s 
situaes de tentao na vida diria, fora do laboratrio. Tambm pode acontecer que as diferenas 
obtidas em resistncia  tentao sejam devidas a outros fatores tais como o valor subjetivo que o 
incentivo utilizado tenha para cada sujeito, ou a estimativa subjetiva que o sujeito faz dos riscos de 
ser apanhado em flagrante. No entanto, h maneiras de o experimentador minimizar o papel desses 
fatores e pode-se considerar que este tipo de situao experimental tem sido muito til no sentido de 
se chegar a um estudo objetivo do comportamento moral. 
ESTUDOS SOBRE OS ANTECEDENTES FAMILIARES 
DA RESISTNCIA  TENTAO 
O ponto de vista do behaviorismo enfatiza a importncia da maneira como a criana  criada como 
fator primordial na aquisio de comportamentos morais. Isto  reconhecido por quase todas as 
pessoas, mas a contribuio maior do enfoque behaviorista tem sido a investigao sistemtica 
desses fatores. De nada nos adianta saber que a maneira de educar as crianas  importante, se no 
soubermos exatamente que estmulos ambientais tm quais efeitos. 
Os primeiros autores da corrente de aprendizagem social contriburam com estudos que 
correlacionavam prticas disciplinares maternas com comportamentos indicativos de resistncia  
tentao. Wright (1971) afirma que apenas trs estudos realmente atacaram o problema de 
correlacionar prticas disciplinares com situaes comportamentais de resistncia  tentao: 
Burton, Maccoby e Allinsmith (1961), Grinder (1962) e Sears, Rau e Alpert (1965). 
No primeiro e no terceiro estudo, as crianas tinham entre quatro e cinco anos, quando os dados 
foram coletados; no segundo, os pais foram entrevistados quando as crianas tinham cinco anos, e 
as situaes de comportamento moral foram aplicadas quando as crianas tinham onze anos. A 
maior parte das variveis de comportamento ou atitude maternas no se correlacionou com 
resistncia  tentao, nem mesmo a varivel afetividade materna, um fator que todos pensam ser 
importante no desenvolvimento moral.  provvel que a no-significncia encontrada para esse fator 
seja devida ao fato de que nas amostras utilizadas todas as crianas eram suficientemente amadas 
por suas mes, ou seja, acima de um mnimo normal de afeio, diferenas em grau de afetividade 
materna no causam diferenas no nvel de desenvolvimento moral de seus filhos.  sabido, porm, 
que a ausncia de afeio materna afeta o desenvolvimento moral. Examinando os trs estudos, 
Wright (1971) chama ateno para o fato de que os correlatos familiares de resistncia  tentao 
diferem para meninos e meninas. Os resultados mais importantes dos trs estudos para meninos so 
os seguintes: 
Burton et alil (1961) verificaram que os sujeitos honestos tinham tido um treinamento de hbitos 
higinicos mais demorado, tinham mes que foram severas no desmame, porm pouco rgidas com 
relao  limpeza em geral. As mes desses meninos usavam pouco a tcnica de raciocinar com 
a criana (a fim de explicar o porqu das proibies, explicar o certo e o errado, explicar 
conseqncias dos atos praticados), usavam mais punio fsica e a tcnica de isolamento (deixar a 
criana sozinha quando se comporta mal). No estudo de Grinder (1962), as mes dos meninos 
honestos estabeleciam padres elevados de ordem, e os meninos demoraram mais a atingir o 
controle higinico. No estudo de Sears et alii (1966), nenhuma medida de comportamento materno 
se correlacionou significantemente com resistncia  tentao, mas, ao contrrio dos outros dois 
estudos, Sears et alii usaram vrias medidas de comportamento paterno e verificaram que vrias 
dessas medidas correlacionaram-se com comportamento moral nas situaes experimentais de 
resistncia  tentao. Os meninos honestos eram bastante ligados ao pai e distantes em relao  
me. O pai era geralmente muito ambivalente em relao ao filho, sendo muito 
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ligado a ele e ao mesmo tempo um pouco hostil, e acreditava firmemente na importncia de ensinar 
o que  certo e o que  errado. 
Quanto s meninas, os resultados foram os seguintes: 
No estudo de Burton et alii (1961), as meninas honestas caracterizavam-se por ter atingido o 
treinamento higinico mais tarde, ter revelado pouca ansiedade em relao a diferenas de sexo e 
terem mes que se utilizavam muito de zangas verbais, e punies fsicas, e se utilizavam pouco da 
tcnica de raciocinar com a criana. No estudo de Grinder (1962), as meninas honestas se 
caracterizavam por terem completado o treinamento higinico cedo. O estudo de Sears et alii (1965) 
chamou a ateno para a importncia da figura paterna. As meninas honestas tinham pais que 
eram relativamente distantes, crticos e insatisfeitos com suas filhas, e as ridicularizavam bastante. 
Ambos, pai e me, encorajavam suas filhas a serem independentes, mas as mes eram mais 
acessveis e raciocinavam com as filhas, com o fim de lev-las a compreender o porqu de se 
comportar bem. 
A natureza desses resultados  bastante contraditria, porm  possvel tirar as seguintes concluses 
gerais: 1) Em famlias normais, onde a relao com a me no varia muito, o papel do pai  
importante na determinao do comportamento moral da criana; 2) Os antecedentes de resistncia 
 tentao so diferentes para meninos e meninas. 
Outros estudos investigaram as relaes entre antecedentes familiares e outros ndices de 
desenvolvimento moral que no a resistncia  tentao observada em situaes experimentais. 
Temos, por exemplo, o estudo de Heinicke (1953) que encontrou uma relao positiva entre 
manifestaes de culpa nas crianas e afetividade materna; e o estudo de Sears, Maccoby e Levin 
(1957) que encontraram uma relao positiva, porm no estatisticamente significante entre essas 
duas variveis. Whiting e Child (1953) argumentam que tcnicas disciplinares psicolgicas (tais 
como negao de afeto, negao de recompensas, raciocinar com a criana) levam a maior 
internalizao de valores morais dos pais do que as tcnicas materiais (punio fsica). Whiting e 
Child nesse estudo, bem como Allinsmith (1960) encontraram relaes positivas entre culpa e o uso 
de disciplina psicolgica. Whiting e Child verifi cara 
tambm que a idade precoce do desmame estava positivamente associada  severidade da 
conscincia, medida por um ndice de culpa. Allinsmith (1960) verificou que tanto a idade de trmino 
do desmame como a precocidade do incio de treinamento higinico estavam positivamente 
relacionados  severidade do superego. Heinicke (1953) encontrou relaes positivas entre culpa e 
severidade do desmame. 
Os estudos de antecedentes familiares do comportamento moral mencionados at aqui foram 
realizados por autores que chamamos de pioneiros da corrente de aprendizagem social, autores 
esses que tentaram testar hipteses inspiradas em noes psicanalticas, atravs de mtodos 
aceitveis pela Psicologia empirista (ver captulo 5). Notamos essa influncia psicanaltica na prpria 
escolha das variveis estudadas: culpa, severidade de desmame (reflexo da importncia atribuida  
chamada fase oral), severidade do treinamento de hbitos higinicos (reflexo da importncia 
atribuda  fase anal). 
Devido  dificuldade de se obterem dados fidedignos a respeito das prticas disciplinares maternas 
(uma vez que as mes podem facilmente esquecer ou distorcer dados), este tipo de estudo tem sido 
abandonado ultimamente.  medida que a teoria da aprendizagem social se foi desligando dos 
propsitos iniciais do chamado grupo de Vale (Miller, Dollard, Mowrer, Sears), que eram de traduzir 
noes psicanalticas em termos de teorias da aprendizagem, e se foi tornando cada vez mais uma 
teoria de desenvolvimento de comportamentos humnos complexos baseada em princpios de 
aprendizagem per se, os estudos de desenvolvimento moral passaram a focalizar variveis 
situacionais que inf[uenciaram o comportamento moral, em situaes de laboratrio, em que se 
atinge um controle muito mais preciso dos fatores ambientais estudados. A nfase passou a ser 
ento no estudo dos efeitos de reforamento (especialmente atravs de estimulao aversiva) e de 
modelos sobre o comportamento moral. 
EFEITOS DE REFORO POSITIVO SOBRE COMPORTAMENTO MORAL 
H poucos estudos sobre o efeito de reforamento positivo sobre o comportamento de resistncia  
tentao. Aronfreed (1969) relata que aprovao verbal combinada com um re 244 
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foro material (balas) foi eficaz na reduo do nmero de transgresses em crianas. La Voie (1974) afirma que 
nenhum estudo experimental verificou efeitos da combinao de elogios com punies sobre resistncia  
tentao. H muitos estudos sobre os efeitos de reforo positivo sobre um comportamento moralmente 
reprovvel  o comportamento agressivo. Por exemplo, Patterson, Ludwig e Sonoda (1961) verificaram que 
crianas que tinham recebido reforo verbal por baterem num boneco de ar tipo Joo Teimoso tiveram maior 
nmero de respostas agressivas numa sesso subseqente do que as crianas que no haviam recebido 
reforo. Bandura e Walters (1963) discutem tambm os efeitos da permissividade sobre comportamento 
agressivo. Mesmo em situaes em que o comportamento agressivo no recebe reforo positivo, a mera 
permissividade tem o efeito de aumentar o nmero de respostas agressivas, possivelmente porque a 
permissividade em uma situao que normalmente  punida atua como uma aprovao tcita ou reforo 
positivo. Isto  provavelmente o que ocorre nas sesses de psicoterapia em que o terapeuta se mantm neutro 
e explicaria por que  comum observar-se que pessoas adultas ou crianas submetidas a psicoterapias desse 
tipo se tornam mais agressivas. 
Os estudos s o b r e reforamento de comportamentos agressivos foram discutidos de maneira mais completa 
no captulo 8, bastando aqui notar-se que o reforo positivo de um comportamento considerado moralmente 
positivo ou negativo aumenta a ocorrncia desse tipo de comportamento. 
EFEITOS DE PUNIO SOBRE RESISTNCIA  TENTAO 
Walters e Parke (1967) argumentam que os estudos correlacionais de prticas disciplinares tm sido de pouca 
utilidade porque os vrios aspectos da punio ficam confundidos. Os estudos de laboratrio teriam a 
vantagem de permitir um exame mais detalhado e controlado desses fatores. Na maioria dos estudos recentes 
sobre punio de transgresses, a obedincia a uma proibio de no tocar em um brinquedo atraente tem sido 
geralmente utilizada como varivel dependente. La Voie (1974) salienta que, embora os efeitos das principais 
formas de punio (castigo fsico, retirada de afeto e raciocinar com a criana) tenham sido discutidos 
amplamente e mesmo estudados atravs de estudos correlacionais, nenhum estudo experi menta 
avaliara a relativa eficincia dessas vrias formas de punio, sendo difcil inferir-se qualquer coisa 
a partir de estudos que compararam apenas duas dessas variveis. La Voie (1973) comparou um 
estmulo aversivo (campainha alta) com raciocinar em um estudo com crianas de primeiro e 
segundo ano do primeiro grau. Verificou que o estmulo aversivo teve mais efeito do que 
raciocinar com a criana e que as meninas cometeram menos transgresses do que os meninos 
aps a punio com estmulos aversivos. No entanto, Cheyne, Goyeche e Walters (1969) 
encontraram maior resistncia a transgresses em meninos de segundo ano quando o raciocinar 
foi usado, enquanto que Parke (1969) demonstrou que a combinao de raciocinar com o uso de um 
estmulo aversivo aumentou a eficcia do estmulo aversivo. Grusec e Ezrin (1972) compararam a 
retirada de reforos materiais com a retirada de afeto e verificaram que ambos eram igualmente 
eficientes para se obterem respostas de autocrtica em crianas de jardim-de-infncia e primeiro 
ano. Os estudos de Aronfreed (1963) e Aronfreed, Cutick e Fagen (1963) relatam que a retirada de 
reforos materiais reduz as transgresses. La Voie (1974) comparou os quatro tipos de punio 
mencionados anteriormente (estmulo aversivo, raciocinar, retirada de reforos materiais e retirada 
de afeto), verificando que o uso do estmulo aversivo foi mais eficaz do que os outros mtodos. O 
uso de elogios por no transgredir em combinao com punies no teve efeito. 
Os efeitos da punio tambm tm sido estudados com relao a diferenas de sexo. Estudos que 
usaram meninos e meninas como sujeitos geralmente obtiveram efeitos mais marcantes da punio 
com meninas do que com meninos. Parke (1967) verificou que a retirada de afeto era mais eficaz 
com meninas e La Vaie (1973) verificou o mesmo com relao a raciocinar e uso de estmulo 
aversivo. Estas diferenas de sexo provavelmente resultam de diferenas na socializao. 
Aronfreed (1968) comenta que meninas so socializadas para obedecer e conformar-se a exigncias 
externas, o que resulta em maior sensibilidade  punio. Bronfrenbrenner (1961) sugere que formas 
brandas de punio tm um efeito nas meninas que  equivalente ao de formas mais severas de 
punio em meninos. Estes resultados esto de acordo com os do estudo clssico de Sears, 
Maccoby e Levin (1957) que atribuem um desenvolvimento moral mais avanado a meninas. Os 
mesmos resultados foram observados em um estudo com crianas brasi 246 
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leiras e norte-americanas (Biaggio, 1969), em que as meninas de ambos os pases revelaram maior 
ndice de internalizao de culpa, obtido atravs de um mtodo projetivo de completamento de 
estrias inacabadas. 
Outro aspecto de interesse que tem sido investigado  a durao do efeito da punio. Parke (1970) 
verificou que raciocinar produz resultados mais duradouros do que a inibio de transgresses por 
meio de estmulos aversivos. 
A importncia do momento em que se aplica a punio tambm tem sido objeto de interesse para os 
investigadores. A teoria de aprendizagem prediz que a punio que ocorre antes da transgresso 
tem mais efeito do que a punio depois do fato, pois no primeiro caso a ansiedade surge (como 
resultante de condicionamento) associada s respostas que precedem  transgresso, evitando que 
esta ocorra, ao passo que no segundo caso a ansiedade s surgiria depois de cometida a 
transgresso, pois no passado o estmulo aversivo atuou depois da transgresso. Isto geraria um 
padro de alta culpa, porm de baixa resistncia  tentao. Walters e Demkow (1963) investigaram 
esse problema da seguinte maneira: Dois grupos de crianas tiveram uma sesso de treinamento em 
que foram instrudos a ver um livro, escrito em russo, sem gravuras, enquanto o experimentador 
trabalhava em outra sala. Vrios brinquedos ficavam expostos na frente das crianas que eram 
proibidas de tocar nos brinquedos durante a ausncia do experimentador. Um observador, atrs de 
um espelho de viso unilateral, observava a criana e administrava as punies, na forma de um som 
alto aversivo, todas as vezes que a criana transgredia. As crianas do grupo punio antes 
recebiam a punio logo que estendiam a mo para apanhar um brinquedo, enquanto que as crianas 
da condio punio depois s eram punidas depois de haver tocado nos brinquedos. Em um dia 
subseqente, as crianas eram novamente trazidas ao laboratrio e ficavam sozinhas com o livro e 
os brinquedos, dessa vez nada lhes foi dito a respeito de poder ou no mexer nos brinquedos. Os 
resultados dos meninos confirmaram a hiptese de que a punio antes  a mais eficiente. Entre 
as meninas, a hiptese no foi confirmada, o que foi atribudo a seu nvel geral de inibio, bem mais 
alto do que o dos meninos. Outro estudo interessante sobre este problema  o de Aronfreed e Reber 
(1963): Em uma srie de tentativas, apresentava-se aos sujei- 
tos (meninos) a escolha entre um brinquedo atraente e um no- atraente. Em uma das condies experimentais, 
a punio (som alto aversivo) era administrada logo que a mo da criana se aproximava do brinquedo 
atraente; na outra condio, a criana era punida depois de ter apanhado o brinquedo proibido. Houve tambm 
um grupo de controle. No ps-teste, verificou-se que a percentagem de transgresses (mexer no brinquedo) foi 
de 26/o no grupo punido no incio, 7l/o no grupo punido no fim e 8O/o no grupo de controle. 
O papel da punio na formao de comportamentos  ainda bastante discutido. Tradicionalmente, a teoria de 
aprendizagem social tem mantido que o uso de estmulos aversivos apenas inibe temporariamente as 
respostas, podendo elas reaparecerem posteriormente, principalmente quando o contexto  diferente, ao passo 
que atravs da extino (ignorar os comportamentos indesejveis) e o uso do reforo positivo de outros 
comportamentos alternativos se obtm um resultado mais duradouro. Esta ltima  a posio de Skinner (1971) 
que no admite o uso da punio ou estimulao aversiva, apesar de muitos crticos que obviamente no leram 
sua obra acusarem Skinner de desejar utilizar choque eltrico para moldar o comportamento de crianas! 
Outros investigadores tm estudado os efeitos de punio e afirmado que formas brandas de estimulao 
aversiva no tm os efeitos colaterais indesejveis e podem ser bastante eficientes na modificao 
comportamental. 
EFEITOS DE MODELOS SOBRE COMPORTAMENTO MORAL 
Outro fator bastante enfatizado pela teoria de aprendizagem social na formao de comportamentos morais  a 
modelao ou exposio a modelos. Tem sido demonstrado e documentado, atravs de dados de estudos 
antropolgicos de observao, bem como de estudos correlacionais que as crianas assimilam padres de 
autocontrole dos mais velhos da cultura. Mischel (1961) comparou negros de Trinidad e de Granada 
verificando que os de Trinidad so mais impulsivos e indulgentes consigo mesmos do que os de Granada. Este 
padro apareceu tambm em crianas dessas duas culturas nas situaes experimentais de demora do reforo 
elaboradas por Mischel e 
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que consistem em perguntar  criana se prefere uma barra de chocolate grande daqui a uma 
semana ou uma barra pequena na mesma hora. A capacidade de tolerar a demora do reforo est 
positivamente associada com capacidade de resistir  tentao segundo os estudos de Mischel. 
Estudos experimentais tambm demonstram a importncia dos modelos sobre o comportamento de 
resistir  tentao: S. Ross (1962) usou uma situao experimental de loja de brinquedos em que 
as crianas de maternal alternavam-se nos papis de vendedor e comprador. Para as crianas na 
condio experimental <modelo desonesto, um modelo (colega da criana treinado para atuar 
como cmplice do experimentador) informava  criana que quando terminassem a brincadeira ele 
poderia escolher um brinquedo apenas. O modelo ento apanhava trs brinquedos. Na condio 
modelo honesto, o modelo apanhou apenas um brinquedo, comportando-se de acordo com a 
proibio verbal. As crianas do grupo de controle tiveram simplesmente a proibio verbal, sem 
nenhuma atuao do modelo no sentido de apanhar brinquedos. Em todas as condies a criana 
ficou sozinha na sala na hora de fazer sua escolha do brinquedo. Os resultados indicaram que em 
comparao com o grupo de controle e o grupo modelo honesto, as crianas expostas ao modelo 
desonesto violaram mais vezes a proibio e demonstraram mais conflito, manifesto atravs de 
auto-agresso, comentrios moralsticos e preocupao em esconder o que tinham feito. Entre os 
experimentos mais recentes sobre o assunto, temos como exemplo o de Wolff (1973), que estudou o 
efeito de exposio a um modelo infantil televisionado que se conformava com uma proibio ou a 
transgredia. Esta proibio era imposta por um experimentador adulto que instrua os sujeitos a no 
brincarem com um determinado brinquedo dentre dois apresentados. Os sujeitos expostos a modelos 
desobedientes transgrediram mais num ps-teste do que os expostos ao modelo obediente. 
Rosenkoetter (1973) analisou experimentalmente os efeitos inibitrios e desinibitrios de modelos, 
verificando que o efeito desinibitrio  geralmente mais potente, isto , a exposio a um modelo que 
transgride desinibe o espectador, facilitando as transgresses deste, ao passo que o efeito de um 
modelo que resiste  tentao tem algum efeito em inibir o sujeito, facilitando sua resistncia  
tentao, mas 
o efeito  menos pronunciado. Este resultado confirma a noo popular de que os maus exemplos 
so logo imitados, mas raramente se imitam os bons exemplos. 
O volume de pesquisas nessa rea  imenso e no nos podemos estender aqui em detalhes sobre 
cada experimento, nem fazer uma resenha exaustiva dos vrios estudos publicados. Os 
experimentos mencionados acima do uma idia desse tipo de trabalho, porm o leitor interessado 
em se aprofundar poder procurar os detalhes lendo as referncias citadas no original. 
ALTA U SM O 
Mais recentemente, pesquisadores na rea de desenvolvimento moral tm focalizado a aquisio de 
comportamentos positivos, isto , tm estudado como as crianas adquirem os bons 
comportamentos a par dos estudos de como a criana deixa de ter maus comportamentos, o que 
foi o enfoque das pesquisas sobre resistncia  tentao. Nesta linha, podemos destacar os nomes 
de Rosenham (1969), Bandura (1969), White (1967), Grusec e Skubiski (1969), Hartup e Coates 
(1967), entre muitos outros. 
Bryan e London (1970), em uma reviso exaustiva do tpico Comportamento altrustico em 
crianas, chamam ateno para algumas caractersticas dos estudos empricos sobre esse assunto. 
Em primeiro lugar, nota-se que os estudos sobre altrusmo em crianas referem-se mais a condies 
que ehciam a manifestao de comportamentos altrustas do que aos processos de aquisio dos 
mesmos, um ponto tambm enfatizado por Midlarsky (1968). A segunda caracterstica  que, em 
contraste com os estudos sobre comportamentos altrustas em adultos, os estudos com crianas 
geralmente focalizam os comportamentos de generosidade ou de compartilhar, e raramente os 
comportamentos de socorrer outrem em aflio. 
Os principais pontos tericos que tm sido estudados com relao  aquisio ou eliciao de 
comportamentos altrustas so o papel do reforo e o papel do modelo. Vrios teoristas (Aronfreed, 
1968; Rosenham, 1969) tm argumentado que a aquisio de respostas altrustas requer um histrico 
de reforamento e o desenvolvimento de um mecanismo de auto-recOm 
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pensa. Estas recompensas auto-administradas so geral mente consideradas como de natureza afetiva e no 
material e tendo mais valor do que aquelas recompensas materiais que so sacrificadas em favor de outrem. 
Aronfreed e Paskal (1965) fornecem dados que apiam a hiptese de que o afeto tem um papel importante no 
aparecimento de comportamento aftrusta. Crianas de 6 a 8 anos participaram de um jogo que envolvia duas 
alavancas. Se a criana apertasse uma das alavancas, 6O/o das vezes ela recebia uma bala. Se apertasse a outra 
alavanca, acendia-se uma luz vermelha no painel do aparelho. Durante a fase de treinamento, uma 
experimentadora comportava-se de uma das trs maneiras seguintes quando a luz acendia: Na primeira 
condio experimental, ela sentava-se perto da criana, exclamava l est a luz, sorria e abraava 
afetuosamente a criana. Na segunda condio experimental, ela abraava a criana sem dizer nada. Na terceira 
condio, ela dizia l est a luz, mas no abraava a criana. Durante a fase de ps-teste do experimento, a 
luz em frente da criana era desligada e a experimentadora ia sentar-se de frente para a criana, tendo  frente a 
parte de trs do aparelho. Nesta parte de trs do aparelho, havia uma luz vermelha funcionando que era vista 
pela experimentadora, mas no pela criana. Nesta fase, cada vez que a criana produzia a luz para a 
experimentadora, esta dizia: 
l est a luz. 
 claro que a luz vermelha ativada pela alavanca  um estmulo neutro, no tendo significado especial. Porm, 
quando emparelhada com o comportamento da experimentadora, dever adquirir significado, por 
condicionamento clssico. Dever passar a significar prazer para a experimentadora. A questo : Qual das 
trs condies ser mais eficiente para associar a luz vermelha a prazer para a experimentadora de forma que a 
criana venha a querer apertar aquela alavanca e ao mesmo tempo privar-se de balas? Os dados desse 
experimento indicaram que uma combinao de pistas expressivas (a est a luz) com afeio (sorrisos e 
abraos) foi to potente que as crianas nessa condio experimental apertavam a alavanca de luz vermelha 
mais freqentemente do que a alavanca das balas. As crianas das outras duas condies experimentais 
escolheram a alavanca das balas mais freqentemente. Outras pesquisas confirmam a hiptese de importncia 
do afeto, demonstrando que uma relao afetiva positiva com um agente socializador facilita o altrusmo. 
Rutherford e Mussen (1968) realizaram um experimento com crianas de maternal, em que estas 
receberam cada uma 18 balas iguais, que podiam guardar para si prprias ou dividir entre elas e 
duas crianas de que gostassem mais em sua turma. As crianas generosas (isto , aquelas que 
doaram 15 ou mais balas para outras) tendiam a perceber seus pais (embora no as mes) como 
gratificadores em uma situao de brinquedo com bonecos. 
Tem-se verificado tambm que experincias temporrias de afeto positivo tm efeitos semelhantes 
aos de uma longa relao positiva. Uma srie de experimentos realizados por Isen (1968) e 
Berkowitz e Connor (1966) revelaram que o sucesso em uma tarefa era significantemente mais 
eficiente para provocar generosidade em adultos do que o fracasso na tarefa. Em uma extenso 
desses estudos, com crianas, Isen, Horn e Rosenham (1971) verificaram que crianas induzidas a 
sucesso contriburam mais para uma Caixinha dos rfos do que as que tinham sido induzidas 
experimentalmente ao fracasso. 
Outro fator cujos efeitos sobre o altrusmo tem sido muito investigado  a influncia de modelos. Os 
resultados so praticamente unnimes em demonstrar que a exposio a modelos generosos facilita 
a generosidade dos sujeitos. Um experimento clssico nessa linha  o de Rosenham e White (1967): 
Crianas de 4 e 5 anos do primeiro grau alternaram a vez de jogar em um jogo de boliche com um 
modelo adulto. Cada vez que o modelo obtinha um escore de 20 pontos, ele apanhava de uma pilha 
sobre a mesa cupes que poderiam depois ser trocados por um presente, no valor de 5 centavos de 
dlar. O modelo ento depositava um dos cupes em uma caixa rotulada Caixinha dos rfos de 
Trenton. Enquanto o sujeito jogava, o modelo olhava para o outro lado ostensivamente esperando 
sua vez. Isto foi feito para minimizar a possibilidade de que a ateno do adulto influenciasse a 
criana a dar. O modelo e a criana tiveram 10 jogadas cada um, durante as quais o modelo venceu 
e contribua para a Caixinha dos rfos duas vezes. Depois de verificar se a criana queria jogar 
outra vez sozinha, o experimentador se retirava, dizendo  criana para voltar para sua sala quando 
terminasse. A criana jogava ento 20 vezes e ganhava quatro vezes. 
Os resultados indicaram que: 1) No sendo expostas a um modelo generoso, nenhuma criana 
contribuiu; 2) Na pre 252 
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sena do modelo generoso, 63/o das crianas contriburam; 3) Na ausncia do modelo generoso que havia sido 
observado, 500/o das crianas contriburam. Os autores concluram que nitidamente a observao de um 
modelo generoso facilitou o altrusmo, no s do tipo normativo (por conformismo, para agradar ao adulto), 
como se verificou na condio 2, mas tambm do tipo autnomo internalizado, como na condio 3. Alm 
disso, no houve relao entre dar na presena do modelo e dar na ausncia do modelo. 
Outro experimento interessante foi o de Hartup e Coates (1967), em que crianas de maternal observaram um 
coleguinha (modelo) que em cada 10 jogadas ficava com um dos brinquedos que ganhava e dava cinco para 
Alec ou Kathy (outras crianas do maternal). A popularidade das crianas (determinada pela quantidade 
de reforos positivos que recebiam durante amostras de observao tiradas num perodo de cinco minutos) foi 
uma varivel independente medida. Outra varivel independente foi o comportamento reforador do modelo 
(se o modelo tinha dispensado muitos reforos  criana ou no). Os resultados indicaram claramente que a 
observao de um coleguinha (modelo) facilitava o altrusmo. Tambm foi interessantssimo o efeito de 
interao obtido entre popularidade dos sujeitos e qualidade reforadora do modelo: As crianas populares 
eram mais influenciadas por modelos que tinham sido bondosos (reforadores) para com elas, mas as crianas 
no-populares tendiam a imitar mais os modelos que no tinham sido reforadores para com elas. Os autores 
concluem que o histrico de socializao da criana e sua relao com o modelo so fatores crticos na induo 
de altrusmo. 
Outro tpico que tem sido alvo da ateno dos pesquisadores de altrusmo  a discrepncia entre a pregao 
moral e a prtica. Freqentemente dizemos  criana o que  certo ou errado, o que deve fazer ou deixar de 
fazer. Qual o efeito dessas pregaes? O que acontece quando o que  ensinado no coincide com o que a 
criana observa nos modelos que tem  sua volta? 
White (1967) comparou os efeitos de se dizer a crianas que deviam contribuir para uma obra de caridade com 
observar um modelo caridoso e com observar e ensaiar com esse modelo. As crianas que foram instrudas 
verbalmente para contribuir deram muito mais do que as que observaram os mode los 
No entanto, esse efeito apareceu apenas no ps-teste imediato. Depois de uma semana no houve 
diferenas entre o grupo de instruo verbal e os de modelo. Alm disso, a estabilidade do 
comportamento (isto , o fato de as crianas contriburem consistentemente ou no nos dois testes) 
foi muito mais alta com as crianas que aprenderam por observao. 
Quanto ao problema de discrepncia entre pregaes morais e exemplos (modelos), os 
experimentos de Bryan e seus colaboradores so diretamente relevantes (Bryan, 1968; 1970; Bryan 
e Walbeck, 1968; 1969). Seu procedimento bsico consiste em utilizar um modelo que, na presena 
da criana, se comporta de maneira caridosa ou gananciosa, enquanto pregando a caridade ou a 
ganncia. As pregaes do modelo so do tipo:  bonito dar para crianas pobres. Os resultados 
desses experimentoS so consistentes em revelar que a pregao moral tem menos efeito sobre o 
comportamento do que as prticas morais. 
CORRELATOS DO ALTRUSMO 
Idade: H evidncia bastante de que a aquisio e eliciao de comportamento generoso aumenta 
com a idade (Handlon e Gron, 1959; Midlarsky e Bryan, 1967; Rosenham, 1969). O trabalho de 
Hartup e Coates (1967) mostrou que a generosidade pode ser eliciada em crianas de maternal. 
Desenvolvimento cognitivo: O trabalho de Piaget (1932) e Kohlberg (1963) sugere que crianas 
pequenas, no tendo 
ainda maturidade cognitiva suficiente, podero revelar menor altrusmo por no compreenderem 
quais as necessidades dos rfos, nem saberem se colocar no lugar de outrem. A distino entre 
altrusmo normativo e autnomo tambm est bastante de acordo com o esquema evolutivo de 
estgios de desenvolvimento moral de Kohlberg. Este autor, como vimos anteriormente, afirma que 
o desenvolvimento do julgamento moral evolui de estgios em que predominam o medo da punio e 
o valor da recompensa, passando por um estgio de conformismo, at chegar a um estgio de 
autonomia e princpios individuais de conscincia. 
Em resumo, podemos dizer que na ltima dcada se tem acumulado bastante evidncia de que a 
generosidade  um 
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comportamento comum em crianas e que pode ser eliciado facilmente em vrias situaes naturais 
ou experimentais. Afeto positivo, reforamento e imitao, todos parecem facilitar a ocorrncia de 
comportamento altrusta. Da mesma forma, desenvolvimento cognitivo, especialmente a capacidade 
de assumir o papel de outras pessoas,  importante para o aparecimento do altrusmo. 
Outro resultado bastante confirmado  o de que o fator imitao  mais potente do que a instruo 
verbal para conduzir ao altrusmo autnomo a longo prazo. 
O estudo do comportamento moral obviamente  de grande importncia para a sociedade e tem 
captado o interesse dos psiclogos do desenvolvimento.  um campo extremamente frtil para 
futuras pesquisas, pois, como em todas as reas da Psicologia, muito resta ainda por se conhecer. 
Chapman e colaboradores (1987) investigaram os fatores afetivos e predisponentes na motivao de 
ajuda das crianas. Os sujeitos foram 60 crianas do jardim de infncia  sexta srie, que foram 
observadas em incidentes desagradveis no laboratrio. Esses incidentes envolviam como possveis 
recebedores de ajuda, um gato, um experimentador adulto, e uma me com beb. Expresses de 
afeto positivas, negativas, e neutras foram observadas em dois incidentes, e as predisposies pr- 
sociais foram avaliadas atravs das atribuies feitas pelas crianas com relao aos motivos e 
sentimentos das personagens de oito histrias que envolviam pessoas em situaes difceis. Os 
resultados indicaram que a ajuda tendia a ser positivamente correlacionada com afeto negativo ou 
neutro. Outras evidncias sugeriram que essas correlaes podiam ser atribu- das principalmente a 
afeto positivo associado com a prpria ajuda, ao invs de afeto experienciado ao ver a situao 
difcil do outro. Entre as atribuies nas histrias, as atribuies de culpa eram relacionadas mais 
forte e consistentemente com ajuda e expresso de afeto. Atribuies de empatia e altrusmo 
tambm se relacionaram com ajuda. Estes resultados foram interpretados como sugerindo que  
possvel que no seja apenas a motivao emptica que  mais importante para a ajuda, mas 
tambm o significado subjetivo dessa motivao em termos de um senso de responsabilidade pela 
situao penosa em que se encontra a outra pessoa. 
No Brasil, Bristoti (1984) investigou as relaes entre altrusmo e percepo de atitudes maternas e 
paternas. O altrusmo foi medido atravs de uma adaptao da escala de Eisenberg-Berg, e a 
percepo de atitudes maternas e paternas foi avaliada atravs da escala de Schaefer (1965, 
Childrens Report of Parent Behavior !nventory). Os resultados mostraram a importncia do 
relacionamento afetivo, do controle ou estabelecimento de limites e da considerao pelos outros, 
demonstrados pelos pais, para o favorecimento do altrusmo na criana. Os dados tambm 
revelaram uma correlao negativa entre o desinteresse paterno e materno percebido pela criana e 
o nvel de altrusmo. Mostraram tambm que o sexo feminino apresenta maior nvel de altrusmo do 
que o sexo masculino, e que as crianas pertencentes ao nvel socioeconmico baixo apresentam 
maior nvel de altrusmo do que as de nvel socioeconmico mdio. No parece, porm, haver 
diferenas de nvel de altrusmo entre os sujeitos provenientes de famlias pequenas e os 
provenientes de famlias grandes. 
Em outro estudo, Bristoti (1985) investigou as relaes entre altrusmo e maturidade de julgamento 
moral. Encontrou uma correlao positiva e significante (0,68) entre essas varive is. 
Ainda no Brasil, Branco (1978) tem estudado comportamentos pr-sociais de crianas pr-
escolares, dentro de um enfoque ecolgico. 
O estudo do altrusmo tem-se desenvolvido a tal forma que Rushton e Sorrentino (1981) dedicam um 
livro inteiro ao estudo do altrusmo. 
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